Drawdown: o número que diz mais do que o lucro
O lucro mostra onde se chegou. O drawdown mostra o que foi preciso atravessar. Porque é a métrica que melhor prevê se um método sobrevive.
Pergunte a alguém como correu o ano nos mercados e a resposta vem quase sempre em percentagem de lucro. É o número que se partilha. Raramente é o número que explica o que aconteceu.
O drawdown — a queda entre um máximo e o mínimo seguinte — diz três coisas que o lucro esconde: quanto risco foi assumido para o obter, quão perto se esteve de desistir e se o método é repetível.
A matemática é assimétrica
Esta é a razão técnica pela qual o drawdown domina qualquer outra métrica de risco.
| Queda sofrida | Ganho necessário para recuperar |
|---|---|
| 10% | 11,1% |
| 20% | 25% |
| 30% | 42,9% |
| 50% | 100% |
| 70% | 233% |
A relação não é linear. A partir dos 30% a exigência de recuperação cresce muito mais depressa do que a queda que a originou, porque o ganho é calculado sobre um capital já reduzido.
O que isto significa na prática: uma sequência de meses medianos não desfaz um mês catastrófico. A gestão da queda é mais determinante para o resultado final do que a qualidade dos meses bons.
Os três drawdowns que não são a mesma coisa
O termo é usado para medidas diferentes, e a confusão gera comparações inúteis.
- Drawdown máximo — a maior queda registada em todo o período analisado. É o pior caso conhecido.
- Drawdown corrente — a distância a que a conta está neste momento do seu máximo histórico. É zero quando se está num novo máximo.
- Duração do drawdown — quanto tempo demorou entre o pico e o regresso ao pico. Este é o número que mede o desgaste psicológico, e é quase sempre omitido.
Uma queda de 15% recuperada em três semanas e uma queda de 15% que demorou onze meses a recuperar são o mesmo número e experiências completamente diferentes. A segunda é a que faz as pessoas abandonarem métodos que funcionavam.
Porque é que o drawdown prevê melhor do que o lucro
Um resultado positivo pode vir de várias origens: de um método consistente, de um período favorável ao estilo usado, ou de risco elevado que ainda não se materializou em perda.
O drawdown ajuda a separá-las, porque expõe o que aconteceu quando as condições foram desfavoráveis. Duas contas com o mesmo lucro anual e drawdowns máximos de 8% e 40% não descrevem o mesmo processo — descrevem processos com probabilidades de sobrevivência muito diferentes no ano seguinte.
É por isso que a métrica mais usada para comparar consistência é a relação entre retorno e drawdown máximo, e não o retorno isolado.
O limite decide-se antes, nunca durante
O drawdown máximo tolerável é um parâmetro, não um resultado. Define-se antes de abrir posições e determina praticamente tudo o resto: o risco por operação, o número de posições simultâneas e o momento em que se para.
Quando esse limite não é definido antes, é definido pelo desconforto — e o desconforto costuma aparecer no pior momento possível, tipicamente perto do fundo da queda, quando parar cristaliza a perda máxima.
Três consequências práticas de fixar o limite antecipadamente:
- O risco por operação deixa de ser arbitrário. Passa a ser derivado do drawdown que se aceita, e não da confiança que se tem numa ideia específica.
- Parar deixa de ser uma decisão emocional. Torna-se a execução de uma regra escrita quando ainda se estava calmo.
- Comparações passam a fazer sentido. Dois períodos só são comparáveis quando o risco assumido em cada um é conhecido.
O que fica
O lucro descreve o destino. O drawdown descreve o caminho — e é o caminho que determina se se chega lá outra vez.
Quem só mede o resultado está a avaliar metade da informação, e normalmente a metade que menos se repete.